Continuo a pasmar perante o sempre surpreendente despertar primaveril. A rebentação ainda é ténue, mas já plena de renovada esperança.
Passado mais um hiato natural e volvidos ao arrebatador espectáculo da criação, pleno de energia encoberta, ousadia inesperada de cores, sons, formas, aromas, texturas e até, magia; todo o brilhantismo do momento, parece superar e a fazer esquecer momentaneamente toda a melhor recordação. A Natureza continua a ser um portento de imaginação e irrepreensível na capacidade e argúcia; sem falhas, nem decepções.
É, continuo a pasmar cada dia que passa nesta vertigem galopante que cobre todos os esqueletos firmes das monumentais esculturas; agora a desabrochar; agora já verdes; agora em plena floração abundante, multicores e para todos os gostos; agora já abrigo e alimento de toda a passarada demasiado ocupada em cortes nupciais e em estratégias inatas de sobrevivência; agora já pouso indelével de toda uma leva de insectos destemidos na procura do máximo alimento; agora já sombra e protecção para os nossos diferentes apetites e desejos de ocasião.
É, continuo a pasmar com a Natureza que dá sem cobrar; que cria sem hesitações; que encanta todos os dias; que envolve e eleva o sentido máximo do nosso viver. Depois há certas alturas em que ando imbuído por toda esta dádiva – como que em transe eufórico... mas consciente.
Afinal, não terão a árvore de porte, o arbusto sob o seu coberto e o trevo renascido mais uma vez, como que do nada, também direito a uma alma, que imputamos como única e só nossa? Dignidade e significância, também não lhes falta!
E toda a “bicheza”, que transforma; que valoriza; que preenche; que faz com todo o equilíbrio e sabedoria natural, o que o Homem não consegue com toda a sua teimosia estrutural, ignorância racional, ganância destrutiva e egoísmo latente – também não serão merecedores do melhor que pretendemos ver em qualquer alma?
E do chão criador, da água da vida, do ar omnipresente e até da pedra que suporta; também não podemos encontrar almas e ver espíritos?
E é andar imbuído de todo um espírito de Natureza perfeita... não fora o Homem!
É, continuo a pasmar com o que a Natureza nos dá e ensina!
É, continuo a pasmar com a nossa falta de jeito para perceber e com a nossa insensibilidade para não querer aprender!