UMA VALENTE CHICHARADA
Alvaiázere lançou-se há pouco mais de meia dúzia de anos como a capital do chícharo e em boa hora o fez, porque tem conseguiu um feito notável. De facto, tem sido feito um trabalho exemplar.
Aqui, encontramos um exemplo do que temos, podemos e devemos fazer, por tão pouco que possa (aparentemente) ser. Aqui, viu-se tradição associada à inovação, numa ligação fantástica que gerou uma dinâmica que abraça todos. Que tem conseguido unir e potenciar - e a partir dos terrenos mais pobres e difíceis de cultivar – à volta do mesmo objectivo: pôr na mesa, o chícharo.
A partir da autenticidade, demonstrada com competência; podemos provar do que é natural e genuíno. Agradavelmente e saudavelmente... genuíno. Daquilo que por vezes nos faz ancorar e remeter bilhetes postais dos mais interessantes que se podem mandar. Quando estamos ao pé do bom e do melhor, sentimo-nos tão bem, que em vez de irmos, o melhor é chamar os outros para que também venham. Para que também provem e se satisfaçam, saciando-se. É sem dúvida a partir dos produtos mais naturais, que se podem mandar dos postais mais sugestivos. E é das terras mais sãs, que mais e melhor podemos... ter (colher)!
O chícharo é uma leguminosa que esteve praticamente extinta nesta região e que, agora se transformou num potencial e na identidade primordial deste concelho. Todos temos e sentimos a nossa identidade, mas ela é sobremaneira valorizada e especialmente justificada, quando é vista e reconhecida pelos outros. E os outros tem colhido do que hoje já se reverteu no principal papel diferenciador de Alvaiázere. No principal poder apelativo de uma terra.
Existem cerca de 100 espécies diferentes de chícharo (Lathyrus spp.), da família das faseoláceas. O chícharo vai bem onde a maioria das culturas falha; é uma excelente forragem para os animais e as suas sementes são os apetecíveis e ainda meio desconhecidos: chícharos! Ora cá está, uma excelente alternativa produtiva para muitos dos nossos espaços abandonados e onde assim se podia “matar três (!) coelhos de uma só cajadada” – e não dois, como a expressão sugere. Primeiro; recuperaram tradição, identidade e asseguraram a manutenção de um património genético valioso. Segundo, produz-se e ficam as áreas contíguas à floresta limpas de combustíveis indesejáveis e que é um dos maiores problemas nacionais, com sempre tantos incêndios... “à perna”! Terceiro, é a riqueza, o reconhecimento e a valorização que toda a cultura está a fazer de bem a um território – claro, que os bons exemplos se devem expandir, e é o que já está a acontecer, felizmente, pelas redondezas.
Todos os restaurantes do concelho aderem e constróem hoje o seu menu à volta do chícharo. E todos os dias. Um sucesso. Da sopa às sobremesas – ai... aquele pudim de chícharo – dos pratos de peixe aos da carne – ai...
Acho que só fica mesmo a faltar é a originalidade de um pequeno-almoço, tipo breackfeast... mas bem à portuguesa; para a volta ser completa. Aqui fica a ideia!