CARREIRO DE FORMIGAS
Aquele tronco caído ao fundo do jardim, à sombra e cheio de musgo era o seu assento predilecto.
Era ali que gostava de descansar e de observar todos os naturais movimentos (ou não) por todo o espaço envolvente. Uma beleza de sons, uma riqueza de formas de vida, um restaurador emocional e um reequilibrador psíquico fantástico, um apaziguador estrutural nestes seus reencontros com toda aquela aparente calmaria.
Aquele “banco de jardim” era perfeito e era um convite permanente e aliciante à serenidade e ao melhor desenvolvimento de qualquer pensamento (livre). O pensamento ali parece que ganhava mais asas e o corpo outra dimensão. Ali, sentado, ele sentia o tempo parado. Ali e assim, ele também sentia que não precisava de mais nada. Estava bem. Perfeito... o momento, naquele seu prazer contemplativo.
A passarada devia-lhe ter sentido os passos e não dava sinais de si. Deviam ter ido dar uma volta ou então também estariam descansadamente a observar a vida. Também o sol ainda ia muito alto, o que ajuda a refrear os ânimos.
Pausadamente reparava na copa das árvores que o protegiam do sol e no leve movimento de umas folhitas ali e depois de outras acolá, para de seguida serem todas varridas por uma brisa passageira. Até parece que aquela brisa que não se tinha repetido, tinha vindo só para o cumprimentar.
Deitou-se sobre o tronco e deixou-se ficar. Oh, como em contra-luz todos os brilhos, contornos, sombras e contrastes são ainda mais maravilhosos.
Lá está ele, o pisco-de-peito-ruivo, como que a desafiá-lo para a cantoria ou estaria a querer mesmo comunicar com ele? Conheciam-se já há muito. Consideravam-se velhos e bons amigos, numa escala temporário apropriada aos dois seres em questão. De há dois anos para cá, a sua relação era afectiva e efectiva. Efectivamente... gostavam um do outro. Ele achava mesmo que o pisco o tinha adoptado e sentia-se por isso mesmo, um privilegiado – e era para se sentir! Por vezes, tentava ir imitando os sons variáveis de estrofe para estrofe que o pisco lhe dirigia, num cantar ao desafio muito medíocre de sua parte. Com o tempo a sua afinação ia melhorando, mas mesmo assim incapaz de o arremedar. Mas lá se entendiam e divertiam na “conversa”.
Entretanto, começou a reparar nos insectos que “habitam os ares” e que vivem a vários estratos; desde o chão às partes mais altas das árvores, entre ervas, arbustos, troncos, flores e copas. De vez em quando, ele conseguia distanciar o olhar, aprofundando-o sobre certos pontos, vendo até ao invisível. Ele conseguia entrar nesses momentos nos recantos mais fundos e distinguir muito mais vida.
Encantadoras todas as diferentes formas de vida em todas as suas diferentes afirmações e especializações.
Continuou relaxando, agora na companhia da mais variada passarada que passava e que por ali permanecia, vendo nele simplesmente mais um habitante e bom vizinho desse seu espaço comum.
Enquanto assim se mantinha, começou a sentir na mão e pelo braço acima algo que lhe desviou a atenção... eram formigas. Formigas no carreiro. Formigas num novo carreiro. Ele, pelos vistos tinha-lhes interrompido o carreiro, mas elas dão a volta à situação na maior e sem perderem tempo. E lá iam atarefadas e motivadas - como sempre - a traçar um novo rumo, a ultrapassarem mais aquele obstáculo, como se nada fosse. “É, haveríamos de ser como elas”, raciocinava ele.
Sentia-se tão bem ali e sobretudo naquele instante em que as formigas já o não viam como um corpo estranho. Sentia-se como fazendo parte integrante do jardim. Como um seu elemento estrutural. Como mais um seu habitante. E ali permaneceu assim... estarrecido e feliz, até que a luz do dia deu lugar à noite.